Round 1: A maldita, infernal e traumática tortura do Detran-RJ

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Era 3 de janeiro quando o despertador tocou às 4h30 da manhã. Já abri os olhos nervoso e apreensivo. Eu não sabia de nada do que me esperava dali por diante, mas o raios de sol alaranjados que entravam timidamente pela janela asseguravam: ia fazer muito calor.

Às 5h eu estava no ponto de encontro. Um carro parou do outro lado da rua. “Autoescola do Meier”, dizia na lateral do Mobi preto. Eu e mais 3 rapazes nos aproximamos e entramos no carro.

Eu estava, puta que pariu, eu estava indo fazer a prova prática da autoescola.


Após 1h30 do meu professor dirigindo em alta velocidade (100km/h), sem cinto de segurança, um carro pequeno com 5 homens grandes e pesados, chegamos ao meio do nada. Sim, e é justamente nesse local, perto de lugar nenhum e à esquina do cu do mundo, que a Máfia dos Transportes decidiu empreender sua prova de direção.

Com muita insistência do professor, acabei topando fazer um “simulado”. Paguei R$300 no limpo, o que me garantiu dar 3 voltas rápidas na pista de prova enquanto ele dava algumas dicas. Os outros 3 rapazes não pagaram, mas acompanharam as 3 voltas junto comigo, ouvindo as dicas, no que eu me senti um completo idiota por ter perdido 300 reais.

Às 7h as pistas foram fechadas para a execução das provas. Daí por diante, foram 3 horas em pé no meio do nada, sob um sol de 38ºC, sem sombra, sem água, sem sinal de celular, sem banheiro, numa fila de uns 2km, aguardando ser chamado para a minha vez.

Dois dos rapazes começaram a conversar comigo, uma conversa meio lenga lenga, conversa de porteiro sabe? falar de Fluminense, de futebol, do que não fazer na prova. A certo ponto um deles já esticava a conversa como se estica um chiclete velho e sem açúcar.

Ao meu redor, era possível ver outros proponentes tentando e falhando drasticamente. Enquanto alguns falham por coisas absurdas, outros perdem por detalhes. Os poucos aprovados adicionam uma nova dose de pressão na sua consciência. É um grande misto de medo com apreensão e desgaste. A certo ponto eu me senti verdadeiramente em uma prova de resistência do Big Brother.


Às 10h, enfim, chegou a minha vez. Minha tez estava vermelha do sol. Minha boca seca. A água que eu havia levado estava quente feito um purgante. E, não havendo banheiro por perto, evitei beber.

A avaliadora me chama pelo nome. Dou um bom dia vívido, esfrego as mãos e digo animado: Vamos lá buscar essa aprovação?

Silêncio.

Se Deus quiser, então! – termino o diálogo sozinho.


Como vocês sabem, na gloriosa instituição que é o Detran-RJ, a prova de direção não avalia objetivamente se você sabe dirigir. Pelo contrário, se você levar um grande piloto para fazer a prova, ele com certeza será reprovado. A prova é, na realidade, uma série de micro-detalhes facilmente esquecíveis e eliminatórios. Porque o intuito nunca foi verificar se você sabe dirigir – o intuito é, a todo instante, desde a primeira linha desse texto, te fazer reprovar.

Absolutamente tudo é feito para te fazer falhar. Porque, falhando, você é obrigado a pagar R$500 para tentar novamente. Metade vai pra autoescola, metade vai pro Detran – o crime perfeito. O assalto é simples, claro, escrachado.


Entro no carro e faço a baliza à perfeição em menos de dois minutos. A segunda avaliadora entra no carro. É hora de executar a segunda parte: o trajeto. Ligo o carro, tiro o freio de mão, dou a seta, coloco o carro na rua.

A avaliadora freia bruscamente. Pela primeira vez ela fala comigo:

  • Você chegou perto demais daquele carro.
  • Mas…
  • Artigo 192, você não respeitou a distância mínima, isso são dois pontos. Se você cometer mais uma infração, estará reprovado. Volte e refaça.
  • Devo dar a ré?
  • Volte e refaça seu procedimento.

Volto exatamente para o ponto de partida. Manobro meu carro passando bem longe do carro seguinte. Entro na rua, passo a segunda marcha. Dou a seta. Ela freia bruscamente. Meu coração congela.

  • Você precisa treinar mais. Está reprovado.
  • Mas por que…?
  • Você demorou demais pra dar a seta.
  • Mas eu dei! Olha aqui!
  • Mas demorou demais. Treine mais e tente novamente.

Ela sai do carro e me condena a pagar R$500 para repetir tudo dali a um mês.


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Fraco, desidratado e reprovado, ainda sou obrigado a esperar 1 hora embaixo do sol para que os outros rapazes fizessem suas tentativas. Nesse momento, a vida me parece um grande beco sem saída. Passar naquela prova se impõe como algo impossível, beirando o surreal. As infinitas possibilidades de reprovação e uma única possibilidade de êxito – a perfeição que eu nunca serei capaz de alcançar. A cada falha, R$500 se vão, até a hora em que uma falha retumbante zerar totalmente o meu progresso e eu precisar iniciar do zero ou desistir por inteiro.

Eu passo a entender, então, todas as pessoas que desistiram de tirar a carteira após a primeira reprovação. Não são poucas, elas estão por aí – meu irmão, a Carol. As pessoas desistem, pois o Detran-RJ se esforça para tornar aquilo numa experiência traumática, uma tortura física, psicológica, uma opressão que te rouba a confiança e o dinheiro. Um cenário de todos contra um, onde tudo é feito pra você falhar – e você falha.

E por mais irreverente e confiante que se possa ser, é inescapável se perguntar por que pra mim as coisas são tão difíceis, por que eu nunca ganho nada de mão beijada, por que eu sempre preciso tentar, tentar, tentar, dar de cara na parede tantas vezes até conseguir algumas migalhas? Por que a vida continua incessantemente criando essas situações de pressão, de drama, de miséria, quando eu estou sempre tão bem disposto a encarar a vida com leveza e tranquilidade? Por que a vida é essa constante batalha na qual a maior parte dos duelos eu perco, e os que ganho são meros troféus de consolação? Dia 3 de janeiro, meu Deus, por que já começar o ano assim?

E aquela música do Engenheiros me volta à mente: Somos quem podemos ser, sonhos que podemos ter… E aquela metáfora de O Velho e O Mar me volta, e o velho, coitado, entregou o seu melhor pra pegar o maldito peixe, mas no caminho de casa o peixe foi atacado e todo seu esforço fora em vão…


Um dos caras passou, dois falharam. Agora sob o sol escaldante do meio-dia, 3 derrotados, 1 felizardo e 1 professor passamos 1h30 voltando para nosso bairro, onde eu sou deixado meio distante de casa, com sede, com fome, e ainda tendo de chegar, tomar um banho, tirar as roupas ensopadas de suor e preparar meu almoço. Com que energia se faz isso após 7 horas de tortura?

Mais tarde, um tweet em inglês dizia ironicamente: “Droga, já é o terceiro dia do ano e eu ainda não mudei completamente minha psique e minha rotina!”

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