Quando o Nerd Calculista foi ao Museu Histórico Nacional

Fomos ao Museu Histórico Nacional, onde me lembrei de uma história intensa que vivi 15 anos atrás.

No quadro: a Batalha de Riachuelo, Guerra do Paraguai, Brasil e Argentina lado a lado.

Tive um date com uma argentina. Quando se está de férias existe um problema latente, que é: seus amigos não estão. Eles permanecem trabalhando e, portanto, indisponíveis para você.

Eis que aí os desocupados se unem. E nesse contexto fui encontrar companhia em uma menina de Buenos Aires, 29 anos, que passava as férias no Rio. O dia estava terrível, chovendo ininterruptamente, céu mais fechado que evangélico a ideias progressistas, mas eu mantinha uma animação recalcitrante.

Talvez a menina nem fosse tão empolgante. Primeiros dates sempre dão esse frio na barriga. Trocamos 5, 6 mensagens num aplicativo e, cientes da desocupação mútua, marcamos um passeio. Não tem como saber se a pessoa é uma psicopata ou, muito pior, se tem bafo.

Marcamos no Museu de Belas Artes, um passeio em que fico muito confortável. Já era meu museu favorito na adolescência. Devo ter ido algumas vezes com a escola mas sem muita atenção. Aos 18 fui novamente com alguns amigos. Aos 20 devo ter ido de novo pela faculdade. Com 22 anos, estive cursando Pintura como eletiva na UFRJ e o professor fez um passeio muito explanativo e interessante ao museu.

Todas essas idas me conferem um repertório de histórias e curiosidades sobre várias peças. Além de ser um museu esplêndido, o mais bonito do Rio, talvez do Brasil, quadros e artes que se pode observar dias a fio.

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Por sorte a menina era uma gracinha, inteligente, divertida e sem bafo. Por azar o Museu de Belas Artes estava fechado e fomos ao Museu Histórico Nacional, onde me lembrei de uma história intensa que vivi 15 anos atrás.

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Há 15 anos não era fácil ser emo como é hoje em dia. Tivemos de pelear muito para que hoje o Di Ferrero brade com orgulho que é emo no Podpah. Nosso único contexto de interação interpessoal era na escola, local dominado por ouvintes do Chris Brown e do 50 Cent. Sendo uma minoria sensível e antipática, nos sobrava conhecer pessoas de gostos semelhantes em um único refúgio: o Orkut.

Assim conheci um dos primeiros amores de minha vida na comunidade do Drake Bell. Ela era da Tijuca, eu era da Penha, nosso amor poderia ser impossível, mas era isso que o temperava com paixão e autenticidade.

Certa feita, numa aula de sociologia, a professora entrega o bilhetinho de que a escola ia fazer um passeio para o Museu Histórico Nacional. Era época daquela Exposição Corpo Humano, em que corpos reais eram plastificados e preservados com o máximo de realismo. Víamos cadáveres preservados, abertos. Uma coisa incrível, mas a um adolescente burro não apeteceu, era uns 30 reais, quantia significativa à época, me parecia mais divertido dormir até tarde gratuitamente.

Naquele dia à noite, no entanto, minha então paixonite N. me avisa, via scrap, que sua escola marcara o mesmíssimo passeio, ao mesmíssimo lugar, na mesmíssima hora.

Mãe me dá 30 reais?

Daquele momento em diante fui tomado de uma intensa expectativa. Primeiro a aprovação orçamentária do passeio. Minha mãe fez aquele ritual de suspense, pediu para meu pai, que deu aquela resistida, até que permitiu. Com o capital em mãos, no dia seguinte acordaria bem cedo para ir à escola antes do horário do passeio e solicitar minha inscrição tardia.

Tudo corria à perfeição. Entrei no ônibus, aquela festa, aquela cantoria, legião urbana pra cá e pra lá, chegamos ao local. No momento em que desci do ônibus meu coração já palpitava. Não existia WhatsApp, nem Twitter, nem celular com internet. Existia apenas a remota possibilidade de um gracejo do destino me colocar na mesma localidade de meu grande amor.

Fizemos toda a excursão e nem sinal da menina ou da escola dela. Ainda que apreensivo, a exposição foi muito legal e interessante. Soube ali que me tornaria fumante, pois o pulmão negro e sombrio combinava com minha personalidade.

À saída do museu, já prestes a adentrar novamente o ônibus, todas as esperanças minguando, uma tristeza resoluta de quem não iria tirar a poeira dos lábios. Todas aquelas Halls teriam sido deglutidas em vão.

Num último vislumbre, lá estava o uniforme celeste do pH Tijuca. Um azul límpido como o céu do deserto, uma aglomeração de crianças brancas e com poder aquisitivo, todos limpos e arrumados por suas empregadas particulares, descendo do ônibus.

Meu coração palpitava como se os donos da exposição o estivessem plastificando para deixar exposto. Uma revoada de borboletas se apoderou do meu abdômen. A cada olhar que saía do ônibus e não era o de N., um pouquinho de mim morria.

Até que ela sai e se coloca na fila formada pela turma. Estava com o casaco amarrado na cintura. Era grande, uma das maiores da turma. Seus cabelos cacheados esvoaçavam. O rosto inchado de criança que não se maquia e acorda cedo.

Nossos olhos se cruzam. Sinalizo que minha escola está indo embora. Ela sinaliza não poder deixar seu lugar na fila. Num ato de rebeldia contida, se afasta dos colegas e vem até mim, que também corro ao seu encontro. Seguramos as mãos. Conversamos meia dúzia de palavras intraduzíveis. Tento beijá-la rapidinho, ela foge. Diz que vai se encrencar na escola. Puxo ela rapidinho pra trás de uma pilastra. Um beijinho rápido, ainda que com mais língua do que em 98% dos beijos europeus.

Estava resolvido. Nada mais poderia me abalar. Eu era ali um jovem pleno de mim. A serotonina inundava, até mesmo quando ela se vira para deixar-me.

Era bom demais estar apaixonado. Até que, na frente do mesmo pH Tijuca, ela me trairia com um amigo meu. Dali por diante conheceria a melancolia de ser um homem romântico.

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Neste dia de 28 de setembro o Museu Histórico Nacional não estava com nada muito caprichado, alguns quadros bem bonitos, mas nada que marcasse. Recebi muitos elogios pelo meu espanhol, principalmente quando estava dizendo alguma coisa e utilizei corretamente a palavra “pereza” ao invés do aportunholado preguiza.

A chuva inclemente desde o início do dia. Já havia me molhado e secado umas cinco vezes. Andávamos com os pés afundados em poças. Tomamos um café, passamos numa livraria – na qual indiquei a ela Capitães de Areia, e ela o comprou – e nos despedimos com um beijo na entrada do metrô.

Continua no próximo post.

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